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São Paulo, 20 de março de 2026, por Pedro Bravo, Karen Sailer, Julianna Arita, Luan de Melo, Luca Schirru e Natalia Pirani Ghilardi-Lopes
No início de março de 2026, pesquisadores da Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) e do Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC) marcaram presença na 6ª edição da Conferência da Associação Europeia de Ciência Cidadã (ECSA), realizada entre os dias 3 e 6 de março em Oulu, na Finlândia. Um dos mais relevantes fóruns globais dedicados à democratização da ciência e à participação pública na pesquisa, o evento reuniu centenas de pesquisadores e praticantes da ciência cidadã de diferentes partes do mundo. O tema desta edição foi “Citizen Science bridging Centre and Periphery” (Ciência cidadã: uma ponte entre o centro e a periferia) e propôs explorar a diversidade de contextos em que a ciência cidadã se desenvolve e seu potencial como elo entre centros de poder científico e suas periferias geográficas, culturais, sociais e institucionais. Uma aspiração que, como os debates ao longo dos quatro dias de evento deixaram evidente, é também um campo de tensão ainda em aberto.
A participação brasileira foi expressiva. Foram apresentados cinco pôsteres e uma comunicação oral, com temáticas que abrangem desde práticas locais de engajamento social e divulgação científica até o fortalecimento institucional, a capacitação teórica em ciência cidadã e os desafios jurídicos emergentes:
- Pôster: Exploring Citizen Science Engagement Strategies Across Social and Cultural Contexts in Brazil – Julianna Toyota Arita, Jeferson Coutinho, Blande Viana e Allan Yu Iwama (https://www.ecsa2026.ngo/programme/#17265.92969).
- Pôster: Citizen Science Beyond the Global North: The Role of the Brazilian Citizen Science Network (RBCC) in Decentralizing Knowledge and Practice – Natalia Pirani Ghilardi-Lopes, Pedro Bravo, Walter Eler do Couto, João Victor A. Lacerda, Juliana Silva França, Luana Rocha e Fabiana Oliveira da Silva (https://www.ecsa2026.ngo/programme/#17265.92540).
- Pôster: Citizen science and scientific dissemination: strategies and experiences of a national institute in Brazil – Karen Sailer Kletemberg, Joana Giacomassa, Luan Alves de Melo e Alice Lima (https://www.ecsa2026.ngo/programme/#17265.92503).
- Pôster: Training in Citizen Science: A Systematic Literature Review – Joselaine Setlik, Isabela Maria Seabra de Lima e Natalia Pirani Ghilardi-Lopes (https://www.ecsa2026.ngo/programme/#17265.92673).
- Pôster: Legal challenges of data use in citizen science projects - Luca Schirru e Sarita Albagli (https://www.ecsa2026.ngo/programme/#17265.92819).
- Comunicação oral: Legal Challenges in Citizen Science in the Age of Generative AI – Luca Schirru (https://www.ecsa2026.ngo/programme/#17107.92838).
Na sessão de pôsteres, os trabalhos brasileiros geraram conversas contínuas ao longo de toda a apresentação, com particular interesse dos visitantes pela seção dedicada aos desafios enfrentados pela ciência cidadã no contexto brasileiro, especialmente as tensões entre o modelo participativo proposto internacionalmente e as condições estruturais, políticas e culturais da América Latina.
O que foi debatido — e o que ficou ressoando
Mais do que um catálogo de projetos, a ECSA 2026 ofereceu um espaço para tensionamentos importantes sobre os rumos globais da ciência cidadã. Um dos embates centrais girou em torno dos Princípios da ECSA, documento que orienta práticas de ciência cidadã e tem sido traduzido e adotado por associações em múltiplos países, inclusive pela RBCC. Uma doutoranda de Uganda apresentou pesquisa crítica sobre a aplicabilidade desses princípios em contextos do Sul Global, apontando que alguns deles partem de premissas individualistas e de condições de infraestrutura, alfabetização e tempo que nem sempre estão presentes em outros contextos. A discussão evidenciou que ao menos parte do documento foi concebida com a realidade europeia como referência implícita,algo reconhecido, inclusive, por pesquisadoras que participaram de sua elaboração original.
O desdobramento dessa discussão foi a abertura de um grupo de trabalho da ECSA para revisão dos princípios, com convite à participação de pesquisadores de fora da Europa.
Esse debate articulou-se com uma mesa dedicada à decolonialidade na ciência cidadã, em que foram retomadas iniciativas latino-americanas e africanas que operam a partir de outras lógicas e limitações, e que, justamente por isso, frequentemente chegam a soluções e perguntas distintas. A Carta de Manaus sobre monitoramento participativo foi citada como exemplo de produção de conhecimento situada, gerada a partir de demandas concretas do Sul Global. Esses momentos dialogaram diretamente com o tema central do evento: a distância entre centro e periferia não é apenas geográfica, mas epistemológica; e reduzi-la exige mais do que incluir vozes do Sul Global como convidadas, mas reconhecê-las como produtoras legítimas de conhecimento e de metodologia.
Outro aspecto que chamou atenção foi a forma como a América Latina, e o Brasil em particular, dado o peso simbólico da Amazônia, foi percebida por parte dos participantes. Em alguns momentos, o interesse pelo contexto brasileiro assumiu um caráter exotizante, como se a região fosse, antes de um produtor de conhecimento, um objeto de intervenção. Essa percepção, compartilhada por pesquisadores latino-americanos e africanos presentes, aponta para uma assimetria ainda presente nas relações entre centros e periferias da ciência global e coloca para a RBCC uma questão relevante: como se posicionar nesse cenário de forma a afirmar sua expertise e contribuir para a reconfiguração dessas relações?
No plano mais prático, o intercâmbio revelou que certas dificuldades transcendem fronteiras: questões relacionadas à qualidade de dados, à governança e à manutenção do engajamento persistem tanto no Brasil quanto na Europa. A heterogeneidade cultural, de ambos os lados, torna necessário adaptar estratégias de engajamento a contextos específicos, o que reforça a importância de fóruns como o ECSA para o avanço coletivo do campo.
Durante a conferência, diferentes iniciativas sinalizaram possíveis rumos estratégicos para o fortalecimento e a consolidação da ciência cidadã no contexto europeu. Entre os destaques esteve o workshop dedicado à avaliação do Citizen Science Competency Framework (CitSciComp), que buscou discutir e refinar a definição de competências consideradas essenciais para pesquisadores, gestores e demais atores envolvidos em projetos participativos, evidenciando uma tendência de maior profissionalização e sistematização formativa no campo. Paralelamente, diversos momentos do evento enfatizaram o avanço das discussões sobre a criação de uma infraestrutura pan-europeia de ciência cidadã, com destaque para a iniciativa RIECS-Concept, voltada à integração de recursos, plataformas digitais, instrumentos comunitários e modelos de governança capazes de reduzir a fragmentação institucional e técnica atualmente existente. Em conjunto, essas propostas contribuem para ampliar o debate europeu ao reforçar a importância de temas como capacitação, interoperabilidade de dados, governança participativa e sustentabilidade de longo prazo, considerados elementos centrais para o fortalecimento da credibilidade científica e do impacto social das práticas de produção colaborativa do conhecimento.
Projetos e iniciativas em destaque
A conferência apresentou uma variedade rica de projetos. A tabela abaixo reúne os destaques organizados por área temática:
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Projeto |
Área |
Descrição |
Link |
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Tell Us About Accidental Injuries |
Saúde |
Plataforma de engajamento de pacientes para relato de lesões acidentais |
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SelEe |
Saúde |
Aplica abordagem de ciência cidadã à pesquisa sobre doenças raras |
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Voluntarios por el Agua |
Meio ambiente |
Monitoramento participativo da água no Chile |
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GreenInCities |
Meio ambiente |
Ciência cidadã aplicada à infraestrutura verde urbana |
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Flow |
Meio ambiente |
Monitoramento participativo de água doce |
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FunDive |
Meio ambiente / Biodiversidade |
Mapeamento participativo da diversidade fúngica para conservação |
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OdourCollect |
Ambiente urbano |
Monitoramento coletivo de odores urbanos |
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ScienceUS |
Infraestrutura |
Rede europeia de projetos interconectados de ciência cidadã |
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More4Nature |
Meio ambiente |
Contribuições da ciência cidadã para políticas ambientais |
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CREDO Detector |
Física / Astrofísica |
Usa celulares como detectores de raios cósmicos |
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MICS |
Avaliação de impacto |
Plataforma para avaliação de impacto de projetos de ciência cidadã |
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Waag Futurelab |
Arte e ciência |
Iniciativas na interface entre arte, tecnologia e ciência cidadã |
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Anchor Points |
Saúde / Inovação rural |
Inovação criativa para pessoas com Alzheimer no noroeste austríaco |
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Engajamundo |
Participação / Brasil |
Plataforma brasileira de engajamento cidadão em políticas globais |
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EUGREEN BioUNIVERSITY |
Biodiversidade / Ensino superior |
Rede de universidades europeias com projeto guarda-chuva no iNaturalist |
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EU Citizen Science Academy |
Formação |
Plataforma aberta de recursos educacionais em ciência cidadã |
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RIECS |
Infraestrutura |
Proposta de infraestrutura pan-europeia de ciência cidadã |
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Jogo Google Earth Engine |
Educação |
Jogo educativo baseado no Google Earth Engine |
Por fim, seguem algumas publicações que circularam nos debates
– Bærøe et al. (2022). Pursuing impact in research: towards an ethical approach. BMC Medical Ethics, 23(1), 37.
– Benyei et al. (2023). Challenges, Strategies, and Impacts of Doing Citizen Science with Marginalised and Indigenous Communities. Citizen Science: Theory and Practice, 8(1).
– Fraisl et al. (2020). Mapping citizen science contributions to the UN Sustainable Development Goals. Sustainability Science, 15(6), 1735–1751.
– Groom, Weatherdon & Geijzendorffer (2017). Is citizen science an open science in the case of biodiversity observations? Journal of Applied Ecology, 54(2), 612–617.
– Hofer & Kaufmann (2023). Actors, arenas and aims: A conceptual framework for public participation. Planning Theory, 22(4), 357–379.
– Montanari & Haklay (2023). European Citizen Science: D4.1 Blueprint for the European Citizen Science Academy. https://doi.org/10.5281/zenodo.10521787
– Ozolinčiūtė et al. (2022). Guidelines for Research Ethics and Research Integrity in Citizen Science. Research Ideas and Outcomes, 8, e97122.
– Pocock et al. (2019). Developing the global potential of citizen science. Journal of Applied Ecology, 56(2), 274–281.
– Poetz & Sauermann (2024). How And When To Involve Crowds In Scientific Research. Edward Elgar Publishing. https://www.sciencewithcrowds.org/
– White Paper on Citizen Science (2014). Comissão Europeia. https://ec.europa.eu/futurium/en/system/files/ged/socientize_white_paper_on_citizen_science.pdf
Como síntese da participação brasileira na ECSA 2026, o encontro em Oulu reforçou tanto o potencial quanto os desafios que atravessam o campo da ciência cidadã em escala global. Para a Rede Brasileira de Ciência Cidadã e o Instituto Nacional de Ciência Cidadã, a experiência evidenciou a importância de ampliar diálogos internacionais sem perder de vista as especificidades sociais, políticas e culturais que moldam as práticas no Sul Global.
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Rede Brasileira de Ciência Cidadã pode apoiar a elaboração dessas iniciativas, que promovem diversos benefícios para a educação e gestão ambiental
Por Alice Lira Lima, com apoio de Joana Giacomassa, Karen Sailer e Luan Alves.
Imagine visitar um destino turístico e saber que o passeio que você escolheu, a flor ou o passarinho que fotografou podem ir além das memórias da viagem. Esses registros têm a capacidade de contribuir com a ciência, gerar dados, diagnósticos, influenciar a gestão ambiental e ainda fortalecer comunidades. Essas práticas, que normalmente envolvem instituições de ensino e de conservação ambiental, além de iniciativas locais, podem moldar leis, programas municipais e políticas públicas, o que resulta em inúmeros benefícios para os municípios.
A Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) pode apoiar municípios ou instituições na formulação de instrumentos legais que incorporem a Ciência Cidadã de uma maneira efetiva, com rigor conceitual e cuidado ético. Algumas iniciativas já contaram com esse suporte, como nas cidades de Ibicoara (BA), Conselheiro Pena (MG), Linhares (ES) e Piatã (BA). Cada local tem um contexto e necessidades próprios e a CC atua na promoção de estratégias para a educação, a conservação, a inovação e o desenvolvimento territorial.
A Ciência Cidadã como abordagem
A bióloga e professora Natália Pirani Ghilardi-Lopes, que é uma das fundadoras e integrante do atual Comitê de Gestão da RBCC (2025-2027), explica como a rede foi constituída. “A rede nasceu como um coletivo de pessoas interessadas em promover a Ciência Cidadã no Brasil e, desde o início, entendemos que seria essencial trabalhar o conceito com diferentes setores da sociedade. Criamos processos de formação e espaços de diálogo para discutir as possibilidades dessa abordagem no país. Essa consolidação conceitual foi uma das principais razões da criação da RBCC”, contextualizou a pesquisadora.
A Ciência Cidadã não se desenvolve por meio de um “método único”. Trata-se de uma abordagem flexível. As políticas públicas, por sua vez, devem ampliar o campo de possibilidades. “É uma forma de enxergar como podemos fazer ciência em diálogo com diferentes atores. Existem múltiplas possibilidades de investigação nessa relação com a sociedade e esse é um princípio central da RBCC”, acrescenta Natália.
Essa compreensão orienta o trabalho de advocacy – que consiste em um conjunto de ações organizado para mobilizar a sociedade pela garantia de direitos, para influenciar os tomadores de decisão e incidir em políticas públicas – da Rede, que se consolidou à medida que municípios e instituições passaram a procurá-la em busca de orientações.
Com o avanço do debate no Brasil, a RBCC percebeu que poderia contribuir para a construção de projetos de leis e instrumentos normativos, de forma colaborativa. A Rede não redige projetos de lei. A atuação se dá na análise de projetos, ajustes de conceitos, ideias a partir de experiências e garantia da coerência com princípios amplamente debatidos pelos atores envolvidos.
Após alguns anos de existência, os membros perceberam o potencial da RBCC para subsidiar discussões e contribuir com documentos e políticas sobre a institucionalização da Ciência Cidadã. A atuação acontece a partir do oferecimento de consultoria por um coletivo, orientado para o rigor conceitual e o aprofundamento teórico dos documentos, para que instrumentos de política pública qualifiquem e ampliem a Ciência Cidadã como campo de pesquisa e de prática..
Para o pesquisador João Victor Lacerda, que também faz parte do Comitê de Gestão da RBCC, essa atuação é essencial. “A Ciência Cidadã é uma abordagem relativamente recente no Brasil, e por isso ainda existe confusão teórica e terminológica, além de questões éticas delicadas. A Rede promove discussões, cursos e eventos que ajudam a esclarecer esses pontos, para que políticas públicas estejam alinhadas ao que a comunidade vem debatendo”, explicou. O pesquisador acrescentou ainda que todas as pessoas que fazem parte da comunidade são bem-vindas aos projetos de Ciência Cidadã e esse é um dos principais objetivos da Rede.
As intervenções da RBCC acontecem em diferentes frentes. Alguns exemplos desse trabalho são:
- Elaboração de guias conceituais para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq);
- Participação em discussões sobre indicadores de avaliação em Ciência Cidadã;
- Revisões de minutas de projetos de lei municipais em diferentes territórios;
- Apoio técnico a iniciativas regionais, nacionais e internacionais.
Ciência Cidadã em Ibicoara (BA)
Entre os municípios acompanhados pela RBCC no momento está Ibicoara (BA). O projeto de lei que institui um Programa Municipal de Ciência Cidadã foi aprovado em 28 de novembro de 2025 e aguarda publicação no Diário Oficial. A iniciativa partiu de uma articulação entre pesquisadoras, comunidade local e a gestão municipal.
A bióloga e consultora ambiental do município, Danielle Villar, conta que conheceu a proposta por meio de Blandina Felipe Viana, “Blande”, que é cofundadora e membro da RBCC, no contexto do Projeto Guardiões da Chapada. “Como bióloga, fui imediatamente atraída pela possibilidade de pesquisa em movimento, uma ciência ativa e colaborativa no território, capaz de engajar jovens e adultos na compreensão da biodiversidade local”, recorda.
O interesse de Danielle encontrou um terreno institucional propício na Chapada Diamantina. Em uma conversa com a professora Blande, surgiu a ideia de inaugurar um marco legal de Ciência Cidadã em Ibicoara. A iniciativa contou então com a participação de membros da RBCC – Blande e Paolla Almeida – e do Executivo Municipal, que reconheceu a proposta como estratégica para educação e inovação.
A metodologia se baseou na análise comparativa de marcos legais e o mapeamento de experiências municipais de sucesso, como Linhares (ES) e Conselheiro Pena (MG), que já estavam em andamento. A partir disso, o grupo elaborou uma proposta adaptada à realidade da Chapada Diamantina. O projeto de lei busca proporcionar maior acesso democrático ao conhecimento, cooperação entre escolas e universidades, oportunidades profissionais para jovens e soluções tecnológicas situadas na realidade local para fortalecimento da autonomia comunitária.
Para que o PL de Ibicoara tivesse rigor teórico e sensibilidade territorial, a RBCC contribuiu desde o início. Blande Viana, que também é bióloga, agrônoma e doutora em ecologia, destacou os princípios que orientaram o documento. A ideia central é a democratização da ciência, ao reconhecer que cidadãos não acadêmicos devem ter acesso ao conhecimento científico e podem participar de maneira efetiva na construção desse conhecimento. Outro ponto é a educação científica, que favorece a aprendizagem coletiva e estimula o envolvimento crítico com questões socioambientais.
“Trabalhamos também com a justiça epistêmica, valorizando os conhecimentos de comunidades tradicionais, quilombolas e agricultores familiares. Há ainda a gestão socioambiental baseada em evidências, utilizando dados produzidos pelos próprios atores sociais. E, por fim, os princípios éticos: transparência, consentimento informado, devolutivas claras e benefícios compartilhados”, explicou.
Iniciativa em Piatã (BA) partiu da comunidade
De maneira cocriada, em Piatã aconteceu o desenvolvimento do Termo de Referência para uma Política Municipal de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), que foi entregue aos gestores do município. Para isso, Blande explica que foi feito um processo de coprodução do conhecimento, que integrou saberes locais de agricultores, quilombolas e técnicos com conhecimentos acadêmico-científicos. Foi conduzido em parceria com coletivos comunitários, organizações da sociedade civil, gestores públicos e a universidade.
“A ideia central era escrever, junto de quem realmente vive o território, uma minuta de projeto de lei para instituir o Programa Municipal de PSA. Piatã é um município super importante na Chapada Diamantina, berço de três grandes bacias hidrográficas. Então, essa minuta precisava trazer diretrizes, formas de controle, financiamento, critérios de implementação e tudo para orientar o poder público na ampliação da oferta de serviços ambientais e na conservação de áreas naturais, recursos hídricos, biodiversidade e vegetação nativa”, orientou.
O processo se desenvolveu por dois semestres, fundamentado nos princípios da Ciência Cidadã, utilizando metodologias participativas. O engajamento das partes interessadas ocorreu desde o início e foi estruturado em duas etapas: primeiro, a de sensibilização e formação, com a criação de materiais educativos para nivelar conceitos e fortalecer as capacidades locais, e depois com a etapa de coprodução da minuta da política, que deu origem ao Termo de Referência que orienta o Programa Municipal de PSA.
Um ponto de destaque é que essa iniciativa não começou na academia. Partiu da própria comunidade, por meio do coletivo Frente Socioambiental de Piatã, que procurou a parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA) porque precisava de alternativas para lidar com os desafios que agricultores familiares e comunidades quilombolas vêm enfrentando no território, os quais se agravaram devido à chegada de uma mineradora e com a expansão do agronegócio na região.
Conselheiro Pena (MG) e Linhares (ES)
Os municípios de Conselheiro Pena e Linhares buscaram a RBCC para revisar suas minutas de políticas municipais de Ciência Cidadã. As demandas surgiram devido a trabalhos anteriores da Rede, que chamaram a atenção de consultores.
Natália e João Victor explicam que a RBCC oferece um olhar especializado aos processos de elaboração de iniciativas. “Esses processos, muitas vezes, são atropelados, e nosso papel é garantir que os instrumentos não engessem a Ciência Cidadã, mas criem condições para que ela floresça”, contextualiza Natália.
As duas legislações já foram sancionadas pelos municípios. Em Conselheiro Pena a Lei Municipal Nº 2.626, de 25 de setembro de 2025, institui o Programa Ciência Cidadã em Conselheiro Pena, como parte da política municipal de educação ambiental. Em Linhares, a Lei Nº 4.348, de 10 de novembro de 2025, dispõe sobre a criação do Programa de Ciência Cidadã Linharense, e dá outras providências.
A RBCC acompanha a preparação dos decretos que regulamentam a implementação de ambas as leis.
Em todos os processos citados, a Ciência Cidadã tem a capacidade de melhorar a governança socioambiental, a educação científica e ambiental e o empoderamento social.
Para entrar em contato com a RBCC, clique neste link e envie a sua dúvida, sugestão ou pedido.
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Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) convoca sua comunidade para participar

Fonte: Imagem ilustrativa gerada por ferramenta de inteligência artificial.
Está aberta a consulta pública sobre a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) 2024–2034, e este é um momento decisivo para os rumos da ciência, da tecnologia e da inovação no Brasil ao longo da próxima década.
As diretrizes definidas neste processo irão orientar as políticas públicas, as prioridades de investimento e os modelos de governança do Sistema Nacional de CT&I até 2034.
Por isso, convidamos todas e todos os membros da RBCC a participarem ativamente da consulta pública, contribuindo para que a Ciência Cidadã seja reconhecida, fortalecida e incorporada de forma transversal na ENCTI.
As propostas da ENCTI 2024–2034 receberão comentários até o dia 20 de dezembro, por meio da plataforma Brasil Participativo:
https://brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/ENCTI2024-2034
Como enviar suas contribuições: clique em "Consulta Pública", clique no número de cada parte do documento, e depois, no tópico "contribuições", e clique em "Entre com sua conta ou inscreva-se".
Preparamos algumas diretrizes que podem orientar a sua participação nesta consulta pública de forma estratégica. Caso deseje, você pode contribuir para o fortalecimento da Ciência Cidadã por meio de comentários e observações alinhados às diretrizes elencadas abaixo, ou da forma que considerar mais adequada.
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👉 O curso “Dilemas na Ciência Cidadã” reforça o papel da RBCC em estimular a reflexão crítica sobre os rumos da ciência cidadã no Brasil, apontando caminhos para que a prática seja cada vez mais inclusiva, ética e socialmente relevante. As aulas do curso podem ser assistidas em Curso Dilemas na Ciência Cidadã - YouTube.
👉 A partir dos diálogos promovidos pelos ministrantes e participantes do curso “Dilemas na Ciência Cidadã”, foi elaborado um documento de reflexões sobre os marcos e princípios orientadores da atuação da RBCC, o qual pode ser acessado na íntegra em https://doi.org/10.5281/zenodo.17160833.
Entrevista conduzida por RBCC
“Quais os principais dilemas da pesquisa e da prática em ciência cidadã?”. Essa foi uma das perguntas centrais que guiaram o curso de extensão “Dilemas na Ciência Cidadã”, promovido pela UFABC em parceria com a Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) e com apoio do Instituto Nacional da Ciência Cidadã (INCC). O curso foi organizado pelo Prof. Dr. Pedro Bravo, que conversou com nossa equipe sobre os principais desafios e reflexões trazidos pelas aulas.
Um espaço para refletir sobre práticas e princípios
Segundo o professor Pedro Bravo, o objetivo do curso foi promover uma cultura de boas práticas na ciência cidadã brasileira e identificar situações éticas e epistemológicas problemáticas que podem emergir em projetos desse campo.
“Não se trata apenas de coletar dados com a ajuda de cidadãos. A ciência cidadã envolve escolhas éticas, epistemológicas e sociais que precisam ser constantemente debatidas”, afirmou.
O curso contou com palestrantes de diferentes instituições do país — como Arthur Amaral (SEDUC-GO), Charbel El-Hani (UFBA), Milena Oliveira (UFMG), Sarita Albagli (Ibict-UFRJ), entre outros — e foi enriquecido com a participação ativa dos alunos e do Comitê Gestor da RBCC.
Discriminação e injustiça epistêmica
Um dos dilemas discutidos foi o risco de reprodução de desigualdades sociais dentro da própria pesquisa. Bravo destaca que é preciso analisar se a formulação de problemas não naturaliza exclusões de gênero, raça ou cultura.
“Devemos estar atentos para não reproduzir preconceitos e, sobretudo, para evitar a chamada injustiça epistêmica — quando alguém é inferiorizado enquanto produtor de conhecimento por causa de preconceitos de identidade”, explica.
Evitar a ciência cidadã predatória
Outro ponto de destaque foi a crítica à chamada “ciência cidadã predatória”, em que voluntários são tratados apenas como mão de obra gratuita, sem retorno em termos de aprendizado, reconhecimento ou benefícios sociais.
“A ciência cidadã deve ser construída em colaboração genuína, valorizando também o conhecimento local e tradicional. Caso contrário, corre-se o risco de explorar os participantes”, alerta Bravo.
Conflitos de interesse e financiamento
O curso também tratou da influência de interesses financeiros e institucionais sobre projetos. Para o professor, é preciso reconhecer que valores sempre atravessam a prática científica, mas que isso nem sempre compromete sua objetividade.
“Especialmente quando o financiamento vem de setores ligados a impactos socioambientais prévios, precisamos nos perguntar: será que a pesquisa não está suavizando responsabilidades, direcionando a coleta de evidências para longe de elementos problemáticos ou exagerando inapropriadamente os resultados atingidos? A transparência é essencial, mas às vezes não basta: pode ser preciso recusar certos financiamentos, principalmente nos casos em que há controle da publicação dos resultados”, afirma.
Dados abertos com responsabilidade
Outro dilema recorrente é o da abertura dos dados. Para Bravo, a disponibilização deve equilibrar princípios de acesso livre (FAIR) e de responsabilidade ética (CARE), principalmente quando envolve comunidades tradicionais ou espécies ameaçadas.
“Não se trata de abrir dados de qualquer jeito. É fundamental pensar na segurança, na privacidade e nas consequências éticas do compartilhamento conforme as especificidades de cada projeto”, reforça.
Reconhecimento dos cientistas cidadãos
Por fim, o curso destacou a importância de garantir reconhecimento justo à participação dos cientistas cidadãos, seja em publicações, agradecimentos ou coautoria.
“Se o cidadão contribuiu de forma significativa para o projeto, deve ter a oportunidade de figurar como coautor. Esse reconhecimento é parte do compromisso ético da ciência cidadã”, conclui Bravo.
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Com o lema “Ciência para Todos, por Todos”, novo comitê inicia ciclo com foco em diálogo, inclusão e formação continuada

A Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) reúne cientistas, cidadãos interessados e entusiastas da área com o olhar sempre voltado à coletividade e à participação. Com essa essência, na segunda-feira (18/8), a rede realizou uma reunião aberta online que marcou a transição de gestão, com a apresentação do balanço do comitê 2023-2025 e o anúncio do plano de trabalho da nova gestão 2025-2027, que assume com o lema “Ciência para Todos, por Todos”.
O Comitê de Gestão 2023-2025 buscou articular e criar, junto a todos os membros, a atuação da RBCC em âmbito nacional. Nesse período, a rede se fortaleceu por meio da integração com outras iniciativas, como o Grupo Saúde Planetária Brasil, e pela participação em eventos estratégicos, entre eles a Conferência Livre de CT&I. Também avançou na revisão e atualização do documento orientador, na articulação de grupos de trabalho, no planejamento estratégico, e na realização do 1º Encontro Brasileiro de Ciência Cidadã, em 2024, que resultou na publicação de um livro de anais. Outro destaque foi a edição especial do Boletim do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, da Série Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), dedicada à ciência cidadã, assim como parcerias formativas, como o curso “Dilemas na Ciência Cidadã”, em colaboração com a Universidade Federal do ABC (UFABC).
Ao apresentar o balanço, Sheina Koffler, cofundadora da RBCC e membro do primeiro comitê de gestão, destacou conquistas e metas a serem alcançadas, como engajamento contínuo nos grupos de trabalho, soluções para limitações financeiras, a necessidade de ampliar a representatividade da rede e, sobretudo, a comunicação. “Precisamos melhorar a comunicação dentro da rede, mas também da rede para outros setores da sociedade. É importante incluir pessoas que não estão no meio acadêmico e que elas se sintam representadas na ciência cidadã”.
Em seguida, João Victor Lacerda, pesquisador do INMA e membro do atual comitê de gestão, apresentou o plano 2025-2027. A proposta é dar seguimento ao trabalho já realizado, mantendo a abordagem transdisciplinar e o alinhamento ao planejamento estratégico discutido coletivamente. “Vamos dar continuidade ao que vem sendo feito. A maior parte dos nossos objetivos está ligada à oficina de planejamento estratégico, cujo relatório está disponível no site da RBCC”.
O atual comitê de gestão elencou, entre as prioridades para os próximos anos, a ampliação do engajamento e da participação de atores sociais não acadêmicos na RBCC, o estímulo à adoção, por projetos de ciência cidadã, de plataformas colaborativas e abertas, a busca por linhas de financiamento junto a instituições de fomento públicas e privadas e a criação de um programa de formação continuada em ciência cidadã, em parceria com o Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC).
A reunião foi concluída com um espaço de diálogo entre os participantes, que reforçaram a centralidade da comunicação e da inclusão como eixos estruturantes da rede. A nova gestão inicia seu percurso com o desafio de ampliar a representatividade e garantir que a ciência cidadã no Brasil seja reconhecida como uma prática colaborativa, aberta e integrada à sociedade.
A ata da reunião pode ser acessada em: Ata da Reunião Aberta com Membros - transição de Gestão da RBCC - agosto de 2025
Comitê de Gestão da RBCC – biênio 2025-2027
Ana Alice Aguiar Eleuterio
Bruno de Carvalho Albertini
Fabiana Oliveira da Silva
João Victor A. Lacerda
Juliana Silva França
Luana M. P. Rocha
Natalia Pirani Ghilardi-Lopes
Nestor B. Oliveira Junior
Pedro Bravo de Souza
Walter Eler do Couto